Percepção

Às vezes penso que está tudo errado
Às vezes, que é pra ser errado
No fundo, que é nossa natureza

A beleza realista gostaria de exprimir aqui
Mas aí deixaria de ser realista
Não acha?

Pobre coitado eu poeta
Sou tão chato, mas tão chato.
Que até concluo que mesmo as pessoas de mim gostam
Não de mim gostam e sim da minha chatice

De qualquer forma, não sou menos chato que vocês
Um pensamento qualquer e se eu prolongar muito vai deixar de ser realista
Pensador eu? Não me julgues
Não penso, percebo.

A cópula

Não costumo postar poemas de terceiros, mas dessa vez me obrigo a fazer:

Depois de lhe beijar meticulosamente
O cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
O moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
Colhões e membro, um membro enorme e turgescente.

Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinênti,
Não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente

Que vai morrer: – “Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!”
Grita para o rapaz que, aceso como um diabo,
Arde em cio e tesão na amorosa gangorra

E titilando-a nos mamilos e no rabo
(Que depois irá ter sua ração de porra),
Lhe enfia cona adentro o mangalho até o cabo.

Manuel Bandeira

Cria

A noite vira o dia
E os erros ficam no passado
Pobre garota
Suas roupas quase abertas chamaram atenção

Um só não bastou
Bastou à noite virar dia
E se fundir tudo em um só
Raiou o sol sujo de sangue

A hipocrisia cresceu
Pobre ex-virgem
Seus ideais inexistentes de família pobre
Não funcionaram

O bolsa família
Pode ser que ajude
Um a mais um a menos

Revire o seu sangue fervente
Pobre ex-virgem
Bastou da sexta pro sábado
Arremataram-lhe seu ânus

Borraram sua maquiagem exacerbada
Manchada em sua face, o que sobras de ti?
A violação do corpo foi feita
E basta o período, para perceber que o sangue não cairá por terra

E a cria já maltratada
Cairá por mágoas terrâneas

Contemplação total, asas, ursos e água

Um dos meus antigos poemas surrealistas:

Eu contemplava em minha paz imensurável
As estruturas de concretos
Compuseram-se asas em mim
As estruturas de concretos viraram água

Em uma onda gigante  que alastrou toda a cidade
Sem ter o que contemplar
Voei para as colinas
Que também viraram água

Agora eu contemplava os ursos marítimos que surgiram
Eles lutavam entre si
E nadavam na velocidade da luz
Eles lutaram entre si

Até que sobrou um deles
Que morreu de velhice
E eu não tive mais nada para contemplar
Só água

Capaz de todas as proezas

Se de pureza e simplicidade
Vivo da mais imensa felicidade
E quanto mais se completa o meu viver
Mais eu tenho de lhe querer

Com palavras singelas
Vou falando do amor
Surgindo o que for
Sem ou com palavras belas

A rima é fraca
O poema também

Alguns versos nem rimam
Outros fazem até demais
Mas o importante é o amor
Da minha pessoa pela noite

O ciúme é explicado
E de brigas e sorrisos
Vamos se endireitando

Ah! Esse é o amor, inexplicável
Se em cinco minutos estávamos brigando,
nem cinco, nos reconciliamos

E assim, vai aumentando o desejo
Desejo não pela noite
Desejo de passar a eternidade do lado dessa

Cinco horas com ela, o mesmo que cinco minutos
Cinco minutos sem, o mesmo que cinco horas

E assim é o amor
Feito água, capaz de derrubar pedra
Capaz de amolecer a terra
Capaz de causar vento
Capaz de apagar o fogo
Capaz de todas as proezas

E assim é o amor
Capaz de todas as proezas

Todos os direitos reservados a Kerollyn Tuller

Robotização de cada manhã

Um dos meus favoritos, antigo,  o primeiro que tive coragem de publicá-lo, recebeu muitos elogios e espero que meus novos leitores gostem e que os antigos relembrem e gostem também, agradeço a leitura:

Mim acorda
Mim se veste
Mim escova os dentes
Mim escova o cabelo
Mim se perfuma
Mim comer
Mim Sair

E esquecendo meu lado indio de ser
é assim todas as manhãs
em que saio para enfrentar
a urbanização exacerbada criada pelo homem branco
E a cada dia que passa mais percebo
O quão alienado sou